Era tarde da noite quando a garota chegara em casa. Apesar do cansaço e da fadiga ela sentia-se leve e renovada, havia removido todo o desconforto de dias e noites mal dormidas e sofridas. Desde a última vez que ela o tinha visto fazia algum tempo, tempo suficiente para apagar o que fosse necessário da memória. Sem mágoas, agora ela reconstruía uma nova vida ao lado de sua companheira "Superação". Era claro, e a garota não podia negar, que havia sido difícil e trabalhoso a tarefa que desempenhara em nome de seu orgulho e amor-próprio, mas não fora impossível, assim agora ela tocava a bola para frente.
A noite era levemente fria e o céu azul acinzentado anunciava que logo cairia uma chuva. Sem delongas ela tratou de fechar logo as janelas de seu pequeno e acomodado apartamento no agitado centro da cidade. Ela observou por um instante a movimentação da cidade grande, até ouvir o tilintar da campainha: Din-don! A essa altura ela ainda não sabia o que mais tarde descobriu ser o som indesejado daquele seu dia.
E de repente, muito mais rapidamente do que se fora, o turbilhão de sentimentos havia voltado à tona, e ela sentia que a "Superação" tinha abandonado-a, mostrando ter sido esse tempo todo, uma falsa amiga. Suas mãos suavam frias, e seu coração batia tão forte que talvez fosse possível ouví-lo. Um bolo formava-se em sua garganta, e seus olhos sentiram um mar de gotículas de tristeza brotar. Um sorriso indescritível percorreu nos lábios do garoto, e agora, mais do que nunca, ela sabia que as barreiras que construíra com tanto esforço, haviam sido feitas de um material inútil.
— Eu sinto muito. Eu sinto muito mesmo. — O garoto proferiu aquelas palavras que pareciam lâminas afiadas ao ouvido dela.
— Sério? Depois de tanto tempo... — Sua voz estava embargada de angústia.
Sem dizer mais nada, ele passou os braços na cintura dela, e mesmo sem querer as lágrimas escorreram dos olhos de ambos; nos olhos dela talvez caísse com mais frequência que a velocidade das gotas da tempestade que desabava lá fora. Agora, com as imunidades baixas, com as muralhas derrubadas, e com o coração indefeso, a garota sabia que já era tarde demais para não se entregar; e no fundo, bem lá no fundo, em um lugar tão pessoal quanto é possível ser, ela sorria sem saber por quê. A garota também sabia que, mais cedo ou mais tarde, aquilo iria acontecer. E, sem sombra de dúvidas está claro para ela, para ele e para você também, que vai começar tudo outra vez...

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